Falar com um especialista

Contas a pagar na reforma tributária: o que muda com o split payment

Por Guto Fragoso, Cofundador e CFO Publicado em 25 set 2026 10 min de leitura
Neste artigo
Contas a pagar na reforma tributária: Pessoa em ambiente de escritório analisando papéis e planilhas, com caneta e calculadora sobre a mesa, enquanto registra informações financeiras.

Split payment é o mecanismo que separa o valor do imposto do pagamento em tempo real e redesenha a rotina de contas a pagar, do processo ao fluxo de caixa

Split payment deixa de ser um conceito técnico da reforma tributária e passa a interferir diretamente na rotina de pagamento a fornecedores.

A partir de 2027, parte das empresas brasileiras vai operar com um mecanismo que segrega IBS e CBS no momento da transação — o valor do imposto segue direto ao Fisco, e o fornecedor recebe apenas o valor líquido.

A mudança não fica restrita ao departamento fiscal. Contas a pagar, que hoje concentra aprovação, pagamento em lote e conciliação bancária, passa a lidar com uma camada extra de segregação de valores e, além disso, com um risco novo: o crédito tributário da própria empresa passa a depender do comportamento fiscal do fornecedor.

Somado a isso, o cronograma da reforma impõe uma transição longa — entre 2026 e 2033, empresas convivem com dois sistemas tributários simultâneos, o que exige dobrar a atenção em validação de documentos e cálculos durante o período. O impacto recai sobre processo, sistema e fluxo de caixa, nessa ordem de prioridade.

Entender o mecanismo do split payment com antecedência permite ao time financeiro ajustar cadastro de fornecedores, capacidade do ERP e projeção de capital de giro antes que a cobrança se torne obrigatória. Empresas que anteciparem esses ajustes evitam gargalos operacionais quando o split deixar de ser facultativo.

O que muda em contas a pagar com a reforma tributária

A reforma tributária transforma contas a pagar de uma função essencialmente operacional — aprovar, pagar, conciliar — em um processo que também precisa validar a regularidade fiscal de cada fornecedor.

Cada nota fiscal recebida passa a carregar cerca de 200 novos campos relacionados a IBS e CBS, e o ERP precisa lê-los e validá-los corretamente para que o pagamento prossiga.

Nesse sentido, o volume de informação cresce, mas o prazo de pagamento não. Portanto, a rotina de contas a pagar precisa de mais automação, não de mais etapas manuais — um ERP despreparado para os novos campos fiscais trava o processamento das notas e, por consequência, atrasa o pagamento a fornecedores.

Como o split payment funciona no pagamento a fornecedores

O mecanismo atua no momento exato da transação financeira, seja via PIX, boleto ou transferência bancária. Compreender essa mecânica em detalhe é o primeiro passo para adaptar processos de aprovação e pagamento em lote.

Separação automática do imposto no momento do pagamento

No ato do pagamento, o sistema financeiro segrega automaticamente a parcela correspondente a IBS e CBS: o fornecedor recebe o valor líquido da operação, enquanto o tributo segue direto aos entes arrecadadores. O Decreto 12.955/2026 regulamentou a CBS e definiu doze arranjos de pagamento e dois procedimentos operacionais para esse split.

Isso significa que contas a pagar deixa de enviar o valor bruto da nota ao fornecedor. Em vez disso, o sistema bancário — ou a instituição de pagamento usada pela empresa — passa a dividir automaticamente cada transação, o que exige integração fina entre ERP, banco e plataforma de gestão financeira.

Pagamento em lote e o novo desenho de aprovação

Pagamentos em lote, comuns na rotina de fornecedores recorrentes, precisam considerar que o valor debitado da conta da empresa já não corresponde ao valor recebido pelo fornecedor. Consequentemente, fluxos de aprovação baseados apenas no valor bruto da nota ficam desatualizados.

Times financeiros precisam reconciliar, para cada pagamento, o valor bruto aprovado, o valor líquido enviado ao fornecedor e o valor do tributo segregado. Sem essa reconciliação automática, a conferência manual de centenas de pagamentos mensais se torna inviável para empresas de médio porte.

Quando o split payment se torna obrigatório

Em 2026, o split payment ainda não está em operação — o ano é dedicado a testes de infraestrutura, sem recolhimento real de tributo. Já em 2027, o mecanismo entra em vigor de forma facultativa, restrita a operações entre empresas contribuintes de IBS e CBS (B2B).

A obrigatoriedade plena e a extensão a outros tipos de operação acompanham a transição escalonada do ICMS e do ISS para o IBS, prevista para o período entre 2029 e 2033. Até lá, cada empresa decide o ritmo de adaptação — mas quanto antes o ajuste, menor o risco operacional.

Crédito condicionado ao pagamento: o novo risco em contas a pagar

Além da mecânica de pagamento, a reforma tributária altera a lógica de apuração de crédito — e essa mudança impacta diretamente a triagem de fornecedores feita pelo time de contas a pagar.

Por que o crédito da empresa passa a depender do fornecedor

Pela regra do crédito condicionado ao pagamento, prevista no artigo 27 da Lei Complementar 214/2025, o crédito de IBS e CBS do comprador só nasce quando o débito do fornecedor é extinto. A extinção pode ocorrer por pagamento, compensação, split payment, cobrança pelo próprio adquirente ou pagamento pelo responsável tributário.

Na prática, se o fornecedor não recolhe o tributo devido, o crédito da empresa compradora pode ficar comprometido — mesmo que ela tenha pago a nota corretamente. Esse desenho transfere ao financeiro uma responsabilidade que antes era, sobretudo, fiscal: acompanhar o comportamento tributário de terceiros.

O que muda na validação e no cadastro de fornecedores

Contas a pagar precisa incorporar critérios novos de triagem antes de aprovar um fornecedor — não apenas dados cadastrais e histórico comercial, mas também regularidade fiscal recorrente. Um fornecedor com pendências no recolhimento de IBS e CBS deixa de ser apenas um risco reputacional e passa a ser um risco financeiro direto.

Igualmente, a frequência de validação muda: em vez de verificar a situação fiscal do fornecedor apenas no cadastro inicial, o time financeiro precisa de monitoramento contínuo, sobretudo para fornecedores recorrentes de alto volume de compra.

Impacto no capital de giro e no fluxo de caixa

O split payment elimina o que muitas empresas usam, hoje, como float tributário — o intervalo entre pagar a compra e o efetivo recolhimento do imposto pelo fornecedor. Com a segregação em tempo real, esse intervalo desaparece do lado do pagamento a fornecedores.

Capital de giro sob pressão

Consequentemente, a disponibilidade imediata de caixa diminui. Recursos que antes ficavam temporariamente disponíveis para giro operacional passam a sair da conta assim que o pagamento é processado, o que exige revisão do capital de giro projetado para os próximos ciclos.

Por outro lado, o impacto não é uniforme entre empresas — negócios com margem apertada e dependência de prazo de fornecedor sentem o efeito com mais intensidade do que empresas com folga de caixa. Nesse sentido, mapear a exposição real antes de 2027 evita surpresas no fluxo de caixa.

Prazos de pagamento e ciclo de caixa

A negociação de prazos com fornecedores também tende a mudar. Prazos hoje calculados sobre o valor bruto da nota passam a precisar considerar que parte do valor nunca transita pela conta corrente da empresa compradora — o que afeta diretamente o ciclo de caixa.

Reprojetar o fluxo de caixa com o novo desenho, portanto, deixa de ser uma tarefa pontual e passa a integrar o planejamento financeiro recorrente, especialmente para empresas de médio porte com múltiplos fornecedores e alto volume de pagamentos mensais.

O que o time financeiro precisa ajustar agora

Adaptar contas a pagar à reforma tributária envolve três frentes complementares: processo, sistema e fluxo de caixa. A ordem importa — processos mal desenhados sobrecarregam qualquer sistema, e sistemas despreparados inviabilizam qualquer projeção confiável de caixa.

Processo: validação fiscal e triagem de fornecedores

O primeiro ajuste é documentar um processo formal de validação fiscal de fornecedores, com checagem periódica — não apenas no cadastro — e critérios claros para suspender pagamentos a fornecedores com pendências relevantes de recolhimento.

Além disso, vale desenhar um fluxo de exceção para casos em que o crédito da empresa fica em risco por comportamento do fornecedor, incluindo quem decide, em que prazo e com que critério a empresa segue ou interrompe a relação comercial.

Sistema: ERP e automação prontos para os novos campos fiscais

O segundo ajuste é técnico: o ERP precisa processar corretamente os cerca de 200 novos campos fiscais que passam a acompanhar cada nota de fornecedor, sem depender de conferência manual linha a linha. Sistemas com automação de contas a pagar reduzem esse risco operacional de forma significativa.

A conciliação bancária também ganha uma camada extra: com o split payment, cada pagamento gera dois registros — o valor líquido ao fornecedor e o valor do tributo segregado —, e a conciliação automática em tempo real evita divergências acumuladas entre o extrato bancário e o ERP.

Sistemas que dispensam CNAB e integração manual com internet banking, com regras de lançamento que classificam automaticamente cada transação, chegam mais preparados para essa transição — a segregação de valores exige justamente esse nível de automação nativa.

Fluxo de caixa: reprojeção e negociação de prazos

O terceiro ajuste é financeiro: reprojetar o fluxo de caixa considerando a perda do float tributário e simular cenários com diferentes níveis de adesão ao split payment, já que a fase inicial é facultativa entre 2027 e o início da obrigatoriedade plena.

Vale também revisar, com antecedência, os prazos negociados com fornecedores estratégicos — renegociar condições antes de 2027 dá mais margem de manobra do que ajustar sob pressão quando o mecanismo já estiver em operação plena.

Calendário da reforma tributária para contas a pagar

O cronograma da reforma se desdobra em marcos que afetam diretamente o pagamento a fornecedores. Conhecer essas datas ajuda a priorizar os ajustes de processo e sistema descritos acima, em vez de tentar resolver tudo de uma só vez.

  • 2026: fase de testes — notas fiscais passam a exigir campos de IBS e CBS, mas sem recolhimento real do novo tributo.
  • 2027: início da cobrança efetiva de CBS e Imposto Seletivo; split payment entra em vigor de forma facultativa, restrito a operações B2B.
  • 2029 a 2033: transição escalonada de ICMS e ISS para o IBS, com extinção total dos tributos antigos ao final do período.

Para o time de contas a pagar, o marco mais urgente é 2027 — é quando o split payment deixa de ser teoria e passa a interferir na conta corrente da empresa, mesmo que de forma opcional no primeiro momento.

Como a Kamino ajuda o financeiro a se preparar para o split payment

A Kamino, por exemplo, oferece um software de gestão financeira com conta bancária e cartão integrados, desenvolvido para empresas de médio porte que precisam se preparar para mudanças como o split payment sem aumentar a equipe financeira.

Regras de lançamento preenchem automaticamente classificação, centro de custo e competência de cada pagamento — o mesmo tipo de automação que a segregação de valores do split payment vai exigir.

A conciliação bancária da Kamino já opera em tempo real, o que reduz o risco de divergência entre valor pago e valor líquido recebido pelo fornecedor.

O módulo de pagamentos da Kamino dispensa CNAB e acesso a internet banking, com fluxo de aprovação e pagamento em lote nativos — recurso relevante quando o valor debitado da conta deixa de coincidir com o valor recebido pelo fornecedor.

Times que já operam com automação de contas a pagar chegam à transição com menos retrabalho.

Empresas que usam a Kamino reportam, em média, mais de 72% de horas poupadas na rotina da equipe financeira por mês — margem que ajuda a absorver a complexidade adicional trazida pela reforma tributária sem expandir o time. Para conhecer como a Kamino pode otimizar a gestão financeira da sua empresa diante da reforma tributária, fale com nossos especialistas.

Pronto para profissionalizar a gestão financeira?

Veja a Kamino automatizar contas a pagar, conciliação e o controle multi-CNPJ da sua empresa.

Falar com um especialista

Continue lendo

iva: Imagem de uma pessoa usando um notebook sobre uma mesa, com gráficos digitais de porcentagens e setas apontando para cima sobrepostos, sugerindo crescimento e aumento de resultados em um contexto de análise e negócios. Reforma Tributária IVA dual: o que é e como funciona na reforma tributária 13 min Cartões e notas em destaque sobre uma mesa, com moedas e cédulas ao fundo, sugerindo planejamento financeiro e tecnologia de pagamento no contexto de Split payment Reforma Tributária Split payment: o que é e como funciona na reforma tributária 13 min Pessoa calcula valores com calculadora sobre uma mesa, com um modelo de casa ao lado, enquanto um gráfico de porcentagem e ícones de impostos aparecem como referência, sugerindo imposto seletivo. Reforma Tributária Imposto Seletivo: o que é e o que muda na reforma tributária 9 min
Falar com um especialista